Crise do coronavírus é mais severa com negócios comandados por mulheres: empreendedoras se desdobram para superar um dos períodos mais instáveis da economia

Embora os impactos negativos tenham sido sentidos por praticamente todos os setores da atividade econômica devido à crise do novo coronavírus, as mulheres empreendedoras enfrentam ainda mais desafios nos seus negócios neste período. É o que aponta pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo o estudo, elas foram as mais afetadas pela crise. A parcela de mulheres que tiveram de paralisar “temporariamente” ou “de vez” suas atividades é de 52%, frente a 47% dos homens.

Outra pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva e pela Rede Mulher Empreendedora, com uma amostra de 1.165 entrevistas em todas as regiões do país, demonstra ainda que, em 21% dos casos, toda a renda familiar vem do negócio tocado por essas mulheres e que, em 17% deles, mais da metade do dinheiro que entra em casa é proveniente desses empreendimentos.

Presentes principalmente no setor de serviços (61%), na indústria (21%) e no comércio (17%), 21% das empresas chefiadas por mulheres tiveram de reduzir salários e cerca de um terço delas tiveram de demitir parte ou todos os funcionários devido às perdas de faturamento, fazendo crescer o percentual das empreendedoras que trabalhavam sozinhas, sem empregados. O número aumentou de 49% para 66% depois da pandemia, ainda de acordo com o estudo do Instituto Locomotiva e da Rede Mulher Empreendedora.

Barreiras sociais já são conhecidas das mulheres antes da pandemia

Em meio a esse cenário, ainda somam-se outras barreiras sociais e econômicas já bastante conhecidas das mulheres. Muitas delas ainda precisam se desdobrar entre as atividades da empresa e as responsabilidades com filhos, com a casa, e lidar com a pressão do sustento da família.

Roberta Pereira conhece bem a complexidade do empreendedorismo feminino. Mãe de dois filhos, de 14 e 18 anos, respectivamente, a empresária é formada em Gestão de Recursos Humanos e comanda a Bonjardim Ambiental, empresa de pequeno porte especializada em implantação de áreas verdes. Com um aguçado perfil de liderança, ela sempre esteve na linha de frente de todos os processos operacionais e burocráticos do negócio, priorizando e respondendo ainda pela gestão e condução saudável da equipe de colaboradores, o que, para ela, é parte primordial para a sobrevivência e o pleno funcionamento da empresa.

No início da crise, ela conta que a prioridade foi garantir os salários de todos os 17 funcionários. Atualmente, durante o período em que eles tiveram de ser afastados, devido à implantação do regime home office ou à suspensão temporária de contratos, o diferencial está sendo manter o contato e a proximidade com a equipe, explicando todas as decisões que estão sendo tomadas, quais serão os passos no plano de retomada das atividades, e procurando tranquilizá-los quanto ao momento de incertezas. “Nesse momento em que todos estamos distantes, continuamos tirando um tempo para ligar, saber como estão. Procuramos ter com eles o mesmo cuidado que teríamos com nossa família se estivéssemos distantes dela e o mesmo tratamento que gostaríamos que tivessem conosco, já que, na Bonjardim Ambiental, eles são parte da nossa história. Queremos que, quando eles voltem às atividades normais, continuem confiando na nossa empresa e se sentindo motivados”, pontua.

Suporte familiar

Além do cuidado com a equipe, sem o suporte presencial dos funcionários, Roberta acabou acumulando mais funções. Apesar de estar acostumada a se envolver e encabeçar todos os processos do empreendimento, o desafio foi administrar o tempo. Ela precisa contar com o apoio da sogra para cuidar dos filhos, que estão fora da escola por enquanto, devido à suspensão das aulas presenciais, enquanto arregaça as mangas ao lado do esposo e sócio Fabrício Pereira, para manter o serviço de delivery de itens de jardinagem, fazer o atendimento dos clientes, e acompanhar a operação de implantação e manutenção das áreas verdes em espaços contratantes.

“A rotina mudou completamente, foram dias muito difíceis, com horas extensas de trabalho para conseguir dar conta de tudo que nossos colaboradores faziam. Isso só me reafirmou a importância de cada um deles. Precisei ainda ter uma conversa franca com meus filhos e minha família, pois eu e meu marido estaríamos mais ausentes e focados em manter a empresa funcionando. Minha sogra é minha rede de apoio e se encarregou de cuidar da alimentação e rotina de aulas online das crianças. A solução foi listar as prioridades e buscar apoio da família, já que a prioridade está sendo manter a empresa viva, que é a nossa fonte de renda e de nossos colaboradores”, explica a empreendedora.

Para Roberta, que atua há 10 anos como empresária, o mercado impõe barreiras para as mulheres em qualquer período e não somente nas instabilidades econômicas. “Já precisei trocar uma equipe inteira, pois os próprios colaboradores não aceitavam serem liderados por uma mulher. Hoje, no processo seletivo que é comandado por mim, já deixo essa situação clara”.

Ela acredita ainda que ter o suporte da família é um grande diferencial para a mulher que deseja empreender. “Ter ao seu lado um parceiro e pessoas que te incentivam a estudar, a crescer e vibram com seu sucesso, te tranquilizam quando as coisas não saem como você esperava é algo primordial, assim como temos de entender que está tudo bem não darmos conta de tudo sozinhas”, finaliza.

 

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