História que o Ceará evitou contar: romance resgata retirantes impedidos de chegar a Fortaleza
Ambientado na seca de 1932, livro revisita a criação dos campos de concentração no interior do estado e acompanha a travessia de um jovem sertanejo marcada por fome, confinamento e violência de Estado
Ambientado no Ceará da década de 1930, o romance Não volte sem ele, de Rafael Caneca, retoma um dos episódios mais duros e ainda pouco discutidos da história do estado: a criação dos chamados “campos de concentração” durante a seca de 1932. Instalados em cidades do interior, esses espaços foram utilizados para conter retirantes e impedir seu deslocamento até Fortaleza, em uma política que articulava controle social, exclusão e gestão da pobreza. O lançamento da obra acontece em Fortaleza, no dia 25 de abril, às 16h, no Museu da Fotografia (Rua Frederico Borges, 545 – Varjota).
A narrativa acompanha Tomás, jovem sertanejo enviado pelo pai à capital em busca do irmão desaparecido. Sua travessia, marcada por fome, deslocamento forçado e confinamento, ecoa a experiência de milhares de cearenses atingidos pela seca e pelas estratégias de contenção adotadas no período. Ao seguir esse percurso, o romance constrói uma perspectiva que parte do interior e se dirige à capital, evidenciando as barreiras (físicas e institucionais) impostas a essa movimentação.

“O livro fala sobre um período da história brasileira, mais especificamente cearense, que revela uma política de governo — quiçá de Estado — de segregação social”, afirma o autor. “Assim, foram construídos ‘campos de concentração’ […] para evitar que os sertanejos pobres se deslocassem para Fortaleza.”
Ao recuperar esse episódio, o romance não apenas revisita a história, mas dialoga com a memória coletiva do estado, frequentemente marcada pela narrativa das secas, mas nem sempre pelas formas de controle que as acompanharam. A obra explicita como a fome e o deslocamento foram atravessados por decisões políticas, transformando a experiência dos retirantes em um problema a ser contido.
Os temas centrais do livro articulam história e experiência: memória e apagamento, violência de Estado, política de exclusão, seca e deslocamento, além da relação entre fé, esperança e sobrevivência no sertão. Nesse contexto, a religiosidade aparece como elemento estruturante da experiência cearense, mas também como campo de tensão.

“Ainda assim, muitos sertanejos mantinham a esperança, amparados na sua fé e religiosidade”, destaca Caneca, ao mesmo tempo em que o romance questiona os limites dessa esperança diante da violência.
A obra nasceu a partir de um projeto do Coletivo Delirantes, grupo literário de Fortaleza, voltado à construção de narrativas baseadas em episódios históricos do Ceará. Inicialmente concebida como o conto “Patu”, a história foi ampliada ao longo de cerca de dois anos de pesquisa e escrita, transformando-se em romance.
Ao trazer para o centro da narrativa um episódio ainda pouco discutido, Não volte sem ele se insere em um movimento de revalorização da história local e de reflexão sobre como ela é lembrada, contada e, muitas vezes, silenciada.
Sobre o autor
Rafael Caneca, 40 anos, nasceu, cresceu e vive em Fortaleza. Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará, é servidor público do Ministério Público do Estado do Ceará, onde atua como assessor jurídico. Possui especialização em Direito Internacional pela Universidade de Fortaleza e também cursou Letras – Português. Escreve desde a infância e foi o mais jovem selecionado em um concurso literário estadual aos 14 anos. Vencedor do Prêmio de Literatura BNB Clube (2017) e com menções honrosas no Ideal Clube, integra o Coletivo Delirantes e mantém o perfil Pacote de Textos. Não volte sem ele é seu primeiro romance.
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